A dança dos corpos
O foco desta postagem está em contemplar o corpo que é vida, destinado a
comunicar e encontrar o divino, integrando-se com o sagrado. A tentativa foi a de ler o
texto bíblico e, a partir da leitura dessa palavra materializada e transmitida pelo papel,
entrever o corpo que nele se coloca: corpo que sofre, alegra-se, ora e dança. Essa dança
encontra-se apagada, relegada ao segundo plano, em registros escritos. Ao direcionar
luz a essas performances, remete-se a algo que vai além do que está registrado, escrito,
indo ao encontro do que é da esfera corporal. Na Bíblia hebraica, a relação estabelecida
entre Deus e a humanidade está em relevo, e o Livro dos Salmos, texto central deste
estudo, é um dos instrumentos utilizados capaz de fortalecer esse laço, pois seus poemas
tratam de uma oração de corpo inteiro – são poemas que se fazem canção, poesia e
oração por meio da voz e da dança. Nesse Livro, o corpo é apresentado como elemento
fundamental, que se insere em uma comunidade e está em relação com o outro e com o
divino. Para isso, dez salmos são lidos e analisados a partir da dança, da tentativa de
perceber ali performances de um corpo presente.
Do texto ao corpo: este foi o trajeto que se seguiu nesta postagem. O
estabelecimento do texto bíblico e a elaboração de suas traduções foram feitos no
Capítulo 1, passando pelo corpo nos Capítulos 2 e 3, em que se analisaram a dança e
suas especificidades no contexto apresentado, na comunidade hebraica. A Bíblia é lida,
por esse viés, sob a força e a forma do movimento: o movimento do texto, de uma
língua a outra, e o movimento do corpo, do gesto à dança. O que se imprime no corpo
do texto é passível de ser levado ao corpo, e ser um texto no corpo com a dança.
Como ler a Bíblia?
Como ler os salmos?
O estudo crítico da Bíblia pode ser feito de várias formas.
A crítica
textual, por exemplo, examina cientificamente o texto bíblico, assim como a crítica
histórica, busca “esclarecer” a origem desse texto: a primeira busca o texto primordial,
ao passo que a última verifica a veracidade das afirmações ali colocadas.
Konings fala
que “ciências auxiliares” – arqueologia, paleografia, filologia, geografia e até mesmo
biologia, medicina – também entram em campo para detalhar ainda mais a análise.
Do
ponto de vista teológico:
Ler a Bíblia é tornar-se judeu crente com Jesus, judeu crente; e,
quanto ao Novo Testamento, judeu cristão da primeira hora, com os
Apóstolos e Evangelistas que eram judeus cristãos da primeira hora. A
gente se mete na carne dessas pessoas, se deixa contagiar por sua
cultura, por sua maneira de perceber o mistério de Deus cujos
pensamentos estão acima dos nossos como o céu acima da terra, Deus
que é espírito (João 4,24)
Konings fala como homem de fé. Entretanto, e sem dúvida, há que se pensar que
se pode ler a Bíblia sem um percurso da fé. Todavia essa polêmica é tema deste estudo.
Para céticos e crentes, queremos pensar a Bíblia como poesia. Ao ler a Bíblia e estudá-
la, deve-se buscar outros autores e, certamente, dialogar. O caminho é longo, amplo e,
por várias vezes, são muitas as possibilidades que surgem adiante, bastante diversas
entre si. E, bem observa Konings, essa “especialização” explica o porquê de a
investigação bìblica ter se “tornado um templo inacessível para o comum dos mortais e,
também, para muitos biblistas. É necessário confiar nas pesquisas dos outros.
Para esta postagem, busca-se o caminho contrário da dança de Salomé : o foco é o corpo que é vida,
é organizado e contempla mais o movimento destinado a comunicar e encontrar o
divino, integrando-se com o sagrado. Ampliou-se o quadro de análise da cena de uma
festa da corte para a celebração de toda comunidade, em rituais. A tentativa que se fez
nesta jornada foi a de ler, conhecer o texto bíblico e, a partir dessa leitura, a partir da
palavra materializada e transmitida pelo papel, entrever o corpo que nele se coloca:
corpo que sofre, alegra-se, ora e dança.
Devido a vários aspectos que serão abordados ao longo da dissertação, essa
dança encontra-se apagada, relegada ao segundo plano, em registros escritos.
Ao direcionar luz a essas performances, remete-se a algo que vai além do que está
registrado, escrito, indo ao encontro do que é da esfera corporal.
Na Bíblia hebraica – para os cristãos, o Antigo Testamento –, a relação
estabelecida entre Deus e a humanidade está em relevo, e o Livro dos Salmos, texto
central deste estudo, é um dos instrumentos utilizados capaz de fortalecer esse laço, pois
seus poemas são uma oração de corpo inteiro – são poemas que se fazem canção, poesia
e oração por meio da voz e da dança. Nesse Livro, o corpo é apresentado como
elemento fundamental, que se insere em uma comunidade e está em relação com o outro
e com o divino. Os salmos são lidos e analisados a partir da dança, da tentativa de
perceber ali performances de um corpo presente.
O estudo da Bíblia hebraica exige que se compreenda o modo como essa
biblioteca, essa reunião de textos que é a Bìblia se constituiu.
No Capìtulo 1.
“A
formação do corpo de texto bìblico”, busca-se, portanto, ver o processo de
estabelecimento do texto, os caminhos tortuosos por que ele percorreu: a produção e
transmissão da Bíblia hebraica, da tradução grega, a Septuaginta, e também do Livro
dos Salmos, que permanecem sendo uma fonte preciosa para judeus, cristãos e
comunidades de quaisquer outras religiões. É necessário entender o percurso do texto
bíblico e a multiplicidade de sua formação, além de seu contexto.
No Capìtulo 2.
“O corpo na oração: do gesto à dança”, é feito o desenho do
corpo no texto bíblico e a importância da dança na Bíblia, da palavra ao gesto, do gesto
à dança. A relação estabelecida pelo indivíduo no espaço e no tempo da dança é
colocada em destaque e caracterizada. Aqui, a dança é entendida como a própria oração,
situação extraordinária em que o ministro se encontra, estabelecendo um encontro
entre a comunidade e a esfera do divino, e, assim, tempo e espaço se sacralizam. Entre
os episódios que levam à dança, um deles é a dança em redor da arca da aliança, cujo
protagonista é Davi, o rei a quem se atribui a autoria do Livro dos Salmos.
No Capìtulo 3.
“A dança nos salmos: ensaios para as performances”, faz-se uma
tentativa de entrever danças realizadas nos salmos e, por meio deles, a voz do intérprete
fala de um corpo dançarino ou o movimento dessa voz, o canto, conduz à poesia do
corpo inteiro, a dança. Analisam-se dez textos – 25, 29, 41-42, 44, 67, 80, 86, 117, 149
e 150 –, nos quais a dança aparece de forma significativa, mostrando o caráter
performático de parte desses salmos. Buscou-se ressaltar que o canto, os textos dos
Salmos são lidos e ouvidos, mas também podem conter o movimento e ser apreendidos com o olhar: além de gestos, há adereços, figurinos, disposição espacial, enfim, a
criação de um ambiente propício para o dançar.
Assim, deixa-se o convite para ler o texto bíblico sob a força e a forma do
movimento: o movimento do texto, de uma língua a outra, e o movimento do corpo, do
gesto à dança.
CAPÍTULO 1
A FORMAÇÃO DO CORPO DE TEXTO BÍBLICO
A produção e transmissão da Bíblia hebraica, da
tradução grega, a Septuaginta, e também do Livro dos Salmos, coleção em que se encerram os textos objeto de estudo desta postagem, aqueles em que a dança se
apresenta.
Vislumbrar o percurso
do texto bíblico e sua multiplicidade,
Não se sabe, de fato, a origem do texto hebraico. Simian-Yofre7
aponta quatro
teorias, contraditórias entre si, que buscam esclarecer alguns pontos dessa questão. A
primeira delas, proposta por P.A. de Lagarde, é denominada “teoria do texto único
original”. Como o próprio nome sugere, haveria um texto-fonte e dele surgiriam todas
as outras variantes. P. Kahle, autor da segunda teoria, defende que diversos textos
populares foram produzidos em localidades várias, e posteriormente ocorre a unificação
de todos eles. A terceira proposta, de W.F. Albright e F.M. Cross, propõe a existência
de “textos locais”, seriam eles: o massorético, desenvolvido na Babilônia; o Pentateuco
Samaritano, escrito na Palestina; e ao Egito coube a produção da Septuaginta. A quarta
e última teoria exposta por Simian-Yofre é a de S. Talmon, que propõe que, apesar de
circularem múltiplas formas de texto, aqueles próprios a determinada comunidade
sociorreligiosa foram os únicos conservados.
A primeira fase da história do texto bíblico é a da composição literária desse
material. O resultado dessa produção, comumente atestado pela verificação de textos
originais e autógrafos – testemunhos diretos dessa primeira fase de construção do texto
bíblico –, perdeu-se há muitos séculos e não se encontra disponibilizado até o momento;
essa ponderação é necessária, visto que ocorrem descobertas nesse campo, e estudos
recentes têm sido elaborados
Sendo assim, o que resta é recorrer à análise das transformações sofridas pelo
material publicado e editado em diferentes épocas. No período que abrange os séculos
III a.C. a I d.C., modificações realizadas nos textos bíblicos são procedimentos comuns.
É a época em que ocorrem as chamadas “correções dos escribas”, por meio das quais
instâncias autorizadas em uma comunidade religiosa tinham o poder de publicar uma
nova edição de um livro canônico devido a circunstâncias que pediam adaptações do
texto bíblico utilizado até então.
Após essa fase de constantes intervenções editoriais, por volta do fim do século I
d.C., um texto hebraico consonântico particular assume papel central e normativo para o
judaísmo, ao ser adotado como único texto autorizado da Bíblia hebraica na
comunidade judaica, com exceção da comunidade samaritana, que rompera com o
mundo judaico, no século IV a.C. É o texto protomassorético, que remonta a um
manuscrito individual de qualidade excelente,10 fato este que pode ser verificado ao se
fazer uma análise das particularidades ortográficas, bem como dos erros materiais do
escriba, fielmente reproduzidos em descendentes desse arquétipo. Essa forma foi aceita
pelos massoretas – nome derivado provavelmente da palavra hebraica masorah, que
significa “tradição” –, os quais trabalharam sobre ela.
Quando o hebraico se transforma em uma língua de cultura, estando presente na
forma escrita e em atos litúrgicos, as matres lectionis – “mães da leitura”, letras
consonantais que funcionam numa função complementar, como sinais de vogais
especiais11
– já não eram suficientes para a preservação de uma pronúncia adequada, o
que levou os estudiosos a lançarem mão de outros instrumentos. Entre os séculos VI e X
d.C., os massoretas foram os responsáveis por desempenhar a tarefa de elaborar um
conjunto de medidas que, no próprio corpo de texto, diferenciasse o sistema de
vocalização com o auxílio de sinais diacríticos. Provenientes quase sempre da mesma
família, trabalhavam nos grandes centros do judaísmo, na Babilônia e na Palestina. Tais
estudiosos desenvolviam dois tipos de trabalho textuais: inseriam os sinais vocálicos no
texto e indicavam particularidades sobre as palavras e frases. O conjunto dessas
observações, a massorá, achava-se nas margens dos manuscritos ou em listas no fim do
texto bíblico. Assim, surge o Texto Massorético, o qual comporta consoantes, sinais de
pontuação e de cantilação (acentos), vogais, divisões em alíneas, seções e livros, além
de notas textuais resumidas (“pequena massorá”) ou em forma detalhada (“grande
massorá”). O desenvolvimento de tais notas indica a formação de uma “crìtica textual”
sistemática, a serviço de uma estabilidade máxima do texto bíblico considerado correto,no intuito de assegurar aos leitores uma grande precisão. Representa, portanto, um
extremo esforço filológico e editorial.
Outro testemunho direto do texto bíblico pertence à comunidade samaritana e foi
conservado por ela: o Pentateuco Samaritano, um texto de tipo consonântico que
apresentava uma grafia arcaica do hebraico e circulava na mesma época do texto
protomassorético. Ao compará-lo ao Texto Massorético, notam-se diferenças referentes
à ordem cultual e ideológica. Além disso, em aproximadamente 1.600 passagens, o
Pentateuco Samaritano e a Septuaginta divergem do massorético.
A partir da descoberta feita entre 1947 e 1956, de 800 manuscritos bíblicos em
11 grutas de Qumrã, localizada na margem noroeste do Mar Morto, a perspectiva se
inverte, e o grego deixa de ser apenas um auxiliar para o conhecimento do hebraico.
Antes desse acontecimento, os manuscritos bíblicos mais antigos datavam do século V
d.C. Grande quantidade de textos de Qumrã é provavelmente do século I a.C., e alguns
deles são de até III a.C. Dali por diante, o hebraico permite, às vezes, compreender
melhor a obra dos tradutores e revisores da Septuaginta. Desse modo, tal descoberta
resolve um enigma: o grego, quando se afasta do Texto Massorético, simplesmente não
inventa. Apesar disso, os manuscritos encontrados não revelaram o tipo textual sobre o
qual se apoia a tradução grega.
Ao analisar a história do texto da Bíblia hebraica, indicam-se, portanto, quatro
textos diversos: o protomassorético, o Pentateuco Samaritano, as várias formas
encontradas entre os documentos do mar Morto e a Septuaginta, tradução grega feita em
torno dos séculos III a II a.C., que leva a supor uma base divergente daquela utilizada
para o Texto Massorético. Entre os testemunhos indiretos, há, por exemplo, traduções
feitas do século II ao VII d.C.: os targumim, tradução aramaica baseada no Texto
Massorético que remonta ao século II d.C.; os textos gregos de Áquila, Símaco e
Teodocião; a Vulgata, versão latina de São Jerônimo, do século IV d.C.; além de
revisões feitas na tradução grega que a aproximam do Texto Massorético.
“Uma vez que se trata de uma história manuscrita, ou seja, de textos escritos a
mão, é preciso ter presente a possibilidade de erros introduzidos ali.
Especificamente sobre a Septuaginta, sabe-se que a transmissão emaranhada de seu
texto deve-se em parte à constante preocupação dos tradutores por seu “melhoramento”
com a ajuda da Bíblia hebraica. Os tradutores foram muitos: pode haver mais de um
livro traduzido pelo mesmo tradutor ou mais de um tradutor dentro de um mesmo livro.
Da tradução dos Salmos, por exemplo, só se pode afirmar que é proveniente de um
mesmo grupo de tradutores, mas a origem da tradução permanece incerta.16 As
hipóteses, porém, são objeto de debate entre os especialistas e constantemente superadas
por novos estudos.
A pluralidade de formas textuais bíblicas, na verdade, não é um feito somente de
copistas ou de tradutores, mas corresponde principalmente à base hebraica, a qual esses
profissionais do texto tinham sob os olhos e com o que trabalhavam.
17 Deve-se ter em
vista que essa diversidade se encontra de início nos manuscritos hebraicos conservados
pela biblioteca de Qumrã.
18 Até a formação de um texto hebraico padrão no século II
d.C., ou seja, até o texto protomassorético – portanto, até vários séculos depois da
tradução realizada em Alexandria –, não se encontravam em uma forma amplamente
unificada e consolidada as distintas partes da Bíblia hebraica, não havia um material que
pudesse ser utilizado como obra de referência. Sendo assim, em nenhum momento da
história, escribas e tradutores dos livros da Bíblia hebraica tiveram à sua disposição
“uma forma „original‟ distinguível que representasse o produto acabado de uma redação
final e que, ao mesmo tempo, ainda não estivesse modificada (de modo deliberado ou
não) pela copiagem”.
Assim, reiterando, as histórias de formação do texto bíblico se sobrepõem e se
confundem, e a possibilidade de se reconstruir literalmente um “texto original” da Bíblia faz-se inexistente. Perdidas as origens, a ideia de exatidão torna-se ainda mais
distante ao se pensar que os textos considerados canônicos em uma determinada
comunidade possuem certa fluidez, na medida em que podem apresentar modificações
realizadas por uma instância autorizada. Como se mencionou anteriormente, a
comunidade judaica vivia, entre os séculos III e I a.C., as chamadas “correções dos
escribas”
Também são provas da maleabilidade do texto as constantes revisões e
recensões, ocorridas do século II ao século IV d.C., para que o material, modificado de
forma consciente e sistemática, se adequasse a princípios precisos, de acordo com uma
finalidade desejada. Nas revisões, realizadas por judeus letrados, o grego da Septuaginta
era adequado de forma a suprimir inexatidões ou adaptá-lo à evolução do texto
hebraico. Sob esses dois aspectos, eles enriqueceram e transformaram a tradição textual.
Os revisores mais conhecidos são Áquila, Símaco e Teodocião. Já as recensões, feitas
por cristãos, foram responsáveis por apresentarem escolhas editoriais: diante da
diversidade dos dados manuscritos, fez-se um esforço a fim de se estabelecer um bom
texto e, para isso, os profissionais retêm para cada livro os exemplares considerados
“autênticos”. As mais importantes são as edições de Orígenes e de Luciano
A mais antiga tradução da Bíblia é testemunha textual preciosa devido à sua
Antiguidade e por ter percorrido uma história textual complexa, que deve ser
considerada em sua utilização. A Septuaginta não se baseia no Texto Massorético; ao
contrário, sua fonte hebraica é muito diferente. Outro ponto que atesta a importância
dessa tradução grega na Antiguidade é o fato de ela ter sido referência para a maioria
das versões antigas da Bíblia, e não do texto hebraico.
A relação existente entre esses textos e a sua disposição ao longo do tempo
podem ser conferidas no diagrama a seguir, que visa demonstrar a multiplicidade de
caminhos percorridos pelas palavras escritas. Do lado direito, registra-se a data de
elaboração.
ABORDANDO A SEPTUAGINTA
Por volta dos séculos II a IV a.C., sábios eruditos judeus são convocados pelo rei
Ptolomeu II Filadelfo para realizar um grande empreendimento tradutório: transpor a
Bíblia hebraica para a língua grega. Esta é a base da lenda que envolve a Septuaginta,
cujo nome faz menção a seu surgimento: seis homens de cada tribo de Israel, ou seja, 72
tradutores, se incumbiram dessa imensa tarefa.
Desse modo, nesse sentido original, pode-se considerar como “Septuaginta”
somente o que se produziu em Alexandria, durante a diáspora, ou seja, só o que
corresponde à mais antiga tradução dos cinco primeiros livros de Moisés, a Torá.
Posteriormente, no cristianismo primitivo, o termo se estendeu aos demais livros, os
Profetas e os Escritos, passando o numeral grego a contar todo conjunto da Bíblia
hebraica, assim como também às diversas adições a Ester, Salmos, Jeremias e Daniel –
livros deuterocanônicos (ou apócrifos), que eram permitidos para o uso eclesial, e que
foram, mais tarde, admitidos no cânon da Igreja católica e só existiam em grego, ou
eram traduções gregas de livros hebraicos ou aramaicos que o cânon judeu não reteve.
22
A última acepção mais ampla do termo “Septuaginta” é a que se mantém na atualidade.
A tradução da Torá ao grego foi um fenômeno único e teve um impacto cultural
sem precedentes na história da tradução. “As escrituras foram os únicos escritos
religiosos da Antiguidade que tiveram o privilégio de serem vertidos para a língua de
Homero.”25 Se, por um lado, os tradutores dão mostras de um conhecimento das línguas
grega e hebraica, à sua volta o esquecimento do hebraico abrange grande parte da
população. Nesse tempo em que se produzia o texto da Septuaginta, hebraico
(evoluindo para o hebraico mishnaico), aramaico e grego coexistiam, com
predominância, porém, desse último, bem comum às diversas comunidades judaicas,
condição esta que se manteria por vários séculos.26 Sendo assim, a expansão do
helenismo e o prestígio grego da koiné como língua franca e literária são elementos
importantes para que a tradução do texto bíblico ocorresse. Devido às necessidades
litúrgicas e pedagógicas da comunidade judaica de Alexandria, a qual desconhecia o
hebraico naquele momento, era imprescindível a elaboração de uma tradução.
O texto bíblico grego é tido como um dos documentos literários mais relevantes
para se compreender a vida religiosa, intelectual e política diversificada e em constante
desenvolvimento do judaísmo antigo na pátria palestina e na diáspora ocidental ao
mesmo tempo que proporciona informações sobre a formação e o desenvolvimento da
fé cristã.
Nas coletâneas judaicas das Sagradas Escrituras hebraicas, os livros são
estruturados de modo a explicitar o desenvolvimento de seu significado assim como o
período da conclusão da coletânea parcial no judaísmo antigo, orientando-se, portanto,
pela cronologia do tempo narrado e pelas necessidades práticas, isto é, o aproveitamento
máximo dos rolos. A sequência Torá-Profetas-Escritos estabeleceu-se muito cedo,
apesar de a ordenação detalhada dos distintos livros bíblicos frequentemente não ser
considerada normativa pelos copistas judeus, especialmente nos Escritos, cujas divisões
do texto em parágrafos, seções e livros remontam a ciclos litúrgicos de leitura e recorte
em perícopes que correspondem ao ofício da sinagoga. Os manuscritos do Mar Morto, a
Septuaginta e o Texto Massorético atestam vários sistemas de divisão.
É possível que o abandono gradual da Septuaginta por parte dos judeus
contribuiu para a fixação do cânone no fim do século I d.C., o qual excluía obviamente
vários livros da Bíblia grega. Na Igreja antiga, a Septuaginta torna-se o Antigo
Testamento cristão, notadamente mais extenso que a Bíblia judaica, o que é considerado
por grande parte dos professores eclesiásticos maior variedade textual, não sendo
entendido como um critério essencial da distinção avaliativa dos escritos bíblicos, ao se
classificarem os livros como “prioritários” e “secundários”
O cânone hebraico se encontra no cânone grego, que apresenta textos
suplementares, que são frequentemente designados como “deuterocanônicos”. Além
disso, a disposição dos livros e dos conjuntos de livros não é correspondente nos dois
cânones, sendo que a diferença se apresenta nos Escritos, que foram separados em duas
partes – os Livros históricos e os Profetas –, e a coletânea dos Profetas foi colocada no
fim do livro.
Essa mudança nos livros, que significou divergência entre Bíblia hebraica e
grega.
O cristianismo adotou a Septuaginta e a interpretou autonomamente,
relacionando-a à vinda do Cristo, o que leva o judaísmo a delimitar o texto, por meio de
novas traduções gregas e amplas recensões – processos indicados na seção anterior –, e
reconduzi-lo à tradição hebraica, considerada a única autêntica.
O LIVRO DOS SALMOS
O estudo do Livro dos Salmos parte do princípio de ser esta uma antologia em
que a dança está presente de modo significativo.
Como os demais livros da Bíblia, os
salmos brotaram dos sofrimentos e das emoções das pessoas, o que evidencia que, assim
como o caráter de elevação espiritual, é importante ter em conta o momento de
produção salmística, pois esse tipo de manifestação é a forma que Israel encontrou para
expressar sua fé e o confronto com os problemas mais ordinários do dia a dia.
Um dos
temas mais importantes na Bíblia hebraica é a relação estabelecida entre Deus e a
humanidade, laço este que se estreita também por meio dos salmos, oração de corpo
inteiro, do indivíduo e da comunidade.
a dança faz parte dessa manifestação do povo de Israel, no intuito de
estabelecer a comunicação com Deus, louvando-o com júbilo.
Até hoje, os salmos permanecem fonte inesgotável para judeus, cristãos e
comunidades de quaisquer outras religiões, pois eles alimentam vidas e amparam
mortes ao exprimirem a caminhada de um povo em oração. “Os salmos continuam
sendo preces e continuam sendo poesias. Isso lhes confere passaporte universal, porque
podem ser compreendidos por todas as pessoas. Quanto mais se mergulha em seu
sentido poético, mais se compreende a sua riqueza orante.
Na Bíblia hebraica, encontram-se os louvores, t
e
hillîm ou Sefer t
e
hillîm:
“T
e
hillîm é plural irregular de t
e
hillâ, feminino, de onde se deveria esperar antes t
e
hillot. O sentido de t
e
hillâ é canto de louvor ou hino.”
Na Septuaginta, lê-se psalmós, que
se refere ao ato de fazer vibrar as cordas de um arco, as cordas de um instrumento
musical, e indica cada composição da coletânea.
Já na versão latina, “saltério” remete ao
termo grego psaltério, instrumento de cordas, um tipo de harpa, que passa a indicar os
salmos que desse modo eram acompanhados.
Essas palavras do campo semântico
musical se fazem canção, poesia e oração, e originam os salmos bíblicos, que nascem
partindo da observação da realidade, da expressão de emoção e de fé, tudo isso
misturado num poema.
Os textos bíblicos em
geral, e os salmos em particular, são testemunhos que comunicam a experiência
religiosa fundante .
Os salmos refletem os acontecimentos da história, o progresso da revelação e da
fé de Israel, portanto, são memória viva de um diálogo milenar entre Deus e seu povo:
com eles os orantes se rejubilam, se entristecem, relembram as promessas antigas e
alimentam suas esperanças. A história do povo de Israel, com êxitos e catástrofes, vira,
assim, oração que se faz pela abordagem dos salmistas, que sempre buscam enxergar as
realidades da vida na perspectiva divina. A partir da intervenção de Deus na história, os
israelitas sentem-se envolvidos no plano de salvação. É na oração que eles lembram a
Deus o compromisso assumido por Ele e desenvolvem uma consciência de pertença a
Seu povo, reforçando a fé e a certeza de que a Aliança não deve ser esquecida.
O século II a.C. apresenta os salmos como fazendo parte da terceira coleção – os
ketubim, os Escritos – deliberadamente concebida como uma antologia dos gêneros
literários presentes em textos da comunidade judaica, ao selecionar o que essa literatura
tinha de mais notável, pretendendo, definitivamente, ser a literatura judaica por
excelência. Apesar de a classificação dos livros poéticos abarcar apenas três livros – a
saber, os Salmos, Cântico dos Cânticos e Lamentações –, o texto bíblico é repleto de
manifestações poéticas. Desse modo, apesar de trazerem elementos de poesia, os livros
que não são considerados poéticos estão em função de outros objetivos e gêneros, tais
como proféticos e sapienciais.
A história da formação do Livro dos Salmos reflete e refere-se aos sucessivos
momentos da história do povo de Israel. A memória dessa experiência é transformada
em oração. Apesar de o livro ter sido elaborado por volta do século III a.C., a criação
dos salmos, no entanto, não é concomitante, pois muitos são bastante anteriores, dos
períodos monárquicos, do exílio e do pós-exílio da história de Israel. Alguns salmos
podem até ser anteriores à monarquia.48 Segundo Tilly, “estudiosos concordam em
afirmar que os cânticos hinos e súplicas contidos nos salmos surgiram, foram
retomados, relidos e até refeitos ao longo de um milênio, da época de Davi até o tempo
dos macabeus”.
49 Porém, mesmo com essa concordância geral a respeito da formação
do livro, não há unanimidade sobre a datação de cada salmo, quando tomado
separadamente. Mesmo tendo essa relação com a história de Israel, os salmos, para
todos os efeitos práticos, não podem ser datados, nem sequer aproximadamente nem
pelo seu conteúdo, nem ainda pela sua linguagem e estilo poéticos. Momigliano aponta
que “o manuscrito de salmos do Qumrã demonstrou que no século II ou mesmo no
século I a.C. a coleção dos salmos ainda estava aberta a modificações”
“Assim como Moisés deu cinco livros de leis a Israel, assim Davi deu cinco
livros de salmos a Israel”: é dessa forma que um comentário rabínico evoca a estrutura
do Livro dos Salmos, o que evidencia a intenção de transformá-lo em uma “Torá de
Davi”, por assim dizer, indicando a orientação do Livro dos Salmos pela Torá, modelo
de texto canônico e litúrgico.
A suposta datação de alguns salmos remetentes ao tempo de Davi e as
referências feitas a ele, no texto bíblico, como “o favorito dos cantores de Israel” (2Sm
23,2) elevam-no à categoria de patrono dos salmistas, levando, consequentemente, a
uma “davidização” da tradição sálmica. Repetidas vezes, Davi é apresentado como
músico, hábil tocador de cítara (1Sm 16, 16.23; 18,10; 19,9).
Muitos salmos, portanto, fazem menção a Davi e também se referem a outros levitas e
cantores do templo, como os filhos de Core e Asaf. Essas indicações, além de tentarem
desvendar a autoria dos salmos, nos mostram que o livro pode mais ser comparado com
nossos livros de cânticos nas igrejas do que com uma coletânea de orações individuais.
Uma questão que se coloca ao falar da composição dos salmos é a respeito dos
cultos em Israel da Bíblia hebraica, os quais se classificavam em dois tipos: um deles
era vivido nas pequenas aldeias do interior e nos santuários locais, caracterizado como
doméstico e familiar, sendo mais ligado às tradições cananeias da sua cultura;
Já o
segundo tipo era o culto oficial no Templo de Jerusalém, dirigido pelos sacerdotes e
levitas, mais ligado aos sacrifícios de animais e que, nas festas e grandes
acontecimentos do ano, reunia todo o povo.
Os salmos individuais nasceram, portanto,
ligados aos santuários do culto caseiro e de interior, enquanto os de louvor coletivo vêm
do templo.
Sigmund Mowinckel defendia o princípio de que o culto era o ato criador
dos salmos.
Contra alguns que sustentavam serem os salmos expressões da oração
individual, ele contestava uma religião interior sem culto.
De fato, a cultura judaica é
essencialmente comunitária e prática, e não tanto mística e interiorizada. Alguns
cânticos do Templo de Jerusalém compõem o Livro dos Salmos, como as “liturgias de entrada no santuário” (Sl 15) ou as “orações de ação de graças” (Sl 22) que serviam de
modelo nas festas familiares no Templo (Dt 12:7)
É provável que a unidade de um ou outro salmo seja igualmente
constituída por sua orientação sobre um desenvolvimento litúrgico.
Entretanto, contrariamente aos critérios evidentes de uma estrutura
“formal” ou “histórica”, a identificação dos elementos litúrgicos e de
seu encadeamento em um salmo continua relativamente hipotética,
uma vez que os textos bíblicos quase não fornecem informações
precisas sobre a liturgia do culto no Israel monárquico e nas sinagogas
pós-exílicas
Também não se sabe exatamente como os salmos eram usados nos cultos
cristãos dos primeiros séculos, dado que não há indicações de rituais ou de esquemas
litúrgicos que indiquem a sua prática em curso. Há indícios, no entanto, de que os
cristãos continuaram com o costume da piedade judaica de orar, ao menos três vezes por
dia.
A oração contida nos salmos, como será demonstrada adiante, poderá ser também
relacionada ao que é material e exterior: ao corpo, ao movimento, à dança contida no
rito, definido por Aldo Natale Terrin como momento-espetáculo que apresenta a
vivência imediatamente real.
No Livro dos Salmos, de acordo com Arthur Weiser, há
“numerosos fragmentos da liturgia do culto e alusões a procedimentos cúlticos”. E,
apesar de essas informações não permitirem que se reconstruam os detalhes da
sequência da festa, elas trazem à tona elementos essenciais da tradição do culto, da
festa, que é, para o autor, o contexto vital da maioria dos salmos e dos seus gêneros
literários, o que de fato confere ao Livro a viva unidade interior.
Nas orações comunitárias, provavelmente, o canto dos salmos tinha um papel
importante, uma vez que, dentre os livros da Bíblia hebraica, o Livro dos Salmos,
juntamente com o de Isaías, é o mais citado em todos os textos neotestamentários.
A recitação dos salmos tinha uma dimensão mística e criativa. O momento de
rezá-los não se configurava somente em recitar as orações que outros tinham feito de
forma mecânica, inconsciente, mas também para que cada pessoa vivenciasse sua
própria união com Deus. O ideal era que se aprendesse a rezar o salmo de tal maneira a
fim de que se despertasse a vontade de formular seu próprio salmo. Jesus aprendeu a
lição dos salmos, chegou a fazer sua própria oração e a ensinou aos apóstolos, que o
transmitiram para nós: o Pai-Nosso.
Composto por 150 salmos, as cinco seções se dividem do seguinte modo,
considerando-se a numeração do texto hebraico, o Massorético: a primeira vai do
número 1 ao 41; a segunda, composta pelo 42 ao 72; 73 a 89 fazem parte da terceira; 90
a 106, da quarta; e, finalizando, os salmos 107 a 150 são componentes da quinta seção.
Divide-se dessa forma partindo da observação da semelhança entre as doxologias que
encerram os salmos.
De acordo com análise de Martin Rose, “os responsáveis por essa estruturação
esforçaram-se para colocar as cesuras em dados literários evidentes”. Assim, o primeiro
livro encerra a primeira coleção davídica; o segundo coincide com o fim das “Orações
de Davi”; o conteúdo destoante do Salmo 89, que encerra o trecho messiânico, faz com
que ele seja o último do terceiro livro; os salmos que constituem a quarta parte são
relacionados ao Salmo de Moisés e os Salmos do Reino; já a última parte não tem uma
doxologia análoga às demais, o que faz Rose acreditar que toda ela encerra o Livro dos
Salmos.
O livro bíblico dos Salmos não é um escrito contínuo apresentado em 150
capítulos, mas claramente de uma coletânea que reúne numerosas pequenas unidades
literárias que, apesar de todas as “contextualizações” secundárias, sempre conservaram
sua “individualidade” particular. A profunda diversidade que caracteriza a origem
desses textos poéticos e da sua função primitiva está além da unificação proposta aos
Salmos, que, tendo em vista seu longo processo de construção, se considera como um
aspecto secundário e tardio.
A numeração do Livro dos Salmos da Bíblia hebraica diverge daquela presente
na Septuaginta. Logo de início, verifica-se que a Bíblia grega compreende um salmo
suplementar, o salmo 151
Além disso, do salmo 9 ao 147, a numeração da Septuaginta difere da do Texto
Massorético, sendo que a do grego é em geral inferior em uma unidade à do hebraico
massorético. Talvez a numeração do grego seja original, por unir os salmos 9 e 10
(LXX 9), que constituem um só poema em forma de acróstico. Vários manuscritos
hebraicos reúnem, como a Septuaginta, os salmos 114 e 115. Na Bíblia grega, os títulos
dos salmos são mais numerosos e mais desenvolvidos que no texto hebraico.61 O
Quadro 4 explicita a diferença da divisão dos textos nas versões.
Na Bíblia grega, os títulos dos salmos são mais numerosos e mais desenvolvidos
que no texto hebraico. Esses acréscimos são em sua maior parte de origem judaica e
descrevem o uso desse livro na liturgia judaica.63 Esses títulos não correspondem a
indicações históricas exatas, sendo considerados como secundários em relação ao
próprio corpus poético dos salmos e não garantem, portanto, um entendimento autêntico
dos textos. Tais títulos foram acrescentados posteriormente pela tradição judaica e não
se deve excluir que, já nesse cabeçalho dos salmos, se possam reconhecer as primeiras
tentativas de classificação formal. Os biblistas têm tentado há séculos entender certas
palavras utilizadas nos sobrescritos no sentido de termos genéricos, mas as informações
etimológicas e históricas são insuficientes e não permitem obter clareza sobre essa
questão. Já os tradutores dos séculos III e II a.C. não estavam mais em condições de
entendê-los de forma correta. A maioria desses títulos alude a instrumentos de música,
festas, entrada no templo, procissões e sacrifícios. Certamente deve-se ler os salmos no
contexto de toda a literatura da Bíblia hebraica, do qual fazem parte e à qual remetem
constantemente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário