segunda-feira, 29 de maio de 2017

A Performance nos Salmos

A dança dos corpos




O foco desta postagem está em contemplar o corpo que é vida, destinado a comunicar e encontrar o divino, integrando-se com o sagrado. A tentativa foi a de ler o texto bíblico e, a partir da leitura dessa palavra materializada e transmitida pelo papel, entrever o corpo que nele se coloca: corpo que sofre, alegra-se, ora e dança. Essa dança encontra-se apagada, relegada ao segundo plano, em registros escritos. Ao direcionar luz a essas performances, remete-se a algo que vai além do que está registrado, escrito, indo ao encontro do que é da esfera corporal. Na Bíblia hebraica, a relação estabelecida entre Deus e a humanidade está em relevo, e o Livro dos Salmos, texto central deste estudo, é um dos instrumentos utilizados capaz de fortalecer esse laço, pois seus poemas tratam de uma oração de corpo inteiro – são poemas que se fazem canção, poesia e oração por meio da voz e da dança. Nesse Livro, o corpo é apresentado como elemento fundamental, que se insere em uma comunidade e está em relação com o outro e com o divino. Para isso, dez salmos são lidos e analisados a partir da dança, da tentativa de perceber ali performances de um corpo presente.

Do texto ao corpo: este foi o trajeto que se seguiu nesta postagem. O estabelecimento do texto bíblico e a elaboração de suas traduções foram feitos no Capítulo 1, passando pelo corpo nos Capítulos 2 e 3, em que se analisaram a dança e suas especificidades no contexto apresentado, na comunidade hebraica. A Bíblia é lida, por esse viés, sob a força e a forma do movimento: o movimento do texto, de uma língua a outra, e o movimento do corpo, do gesto à dança. O que se imprime no corpo do texto é passível de ser levado ao corpo, e ser um texto no corpo com a dança.

Como ler a Bíblia?
Como ler os salmos?

O estudo crítico da Bíblia pode ser feito de várias formas.
A crítica textual, por exemplo, examina cientificamente o texto bíblico, assim como a crítica histórica, busca “esclarecer” a origem desse texto: a primeira busca o texto primordial, ao passo que a última verifica a veracidade das afirmações ali colocadas.
Konings fala que “ciências auxiliares” – arqueologia, paleografia, filologia, geografia e até mesmo biologia, medicina – também entram em campo para detalhar ainda mais a análise.
Do ponto de vista teológico:
Ler a Bíblia é tornar-se judeu crente com Jesus, judeu crente; e, quanto ao Novo Testamento, judeu cristão da primeira hora, com os Apóstolos e Evangelistas que eram judeus cristãos da primeira hora. A gente se mete na carne dessas pessoas, se deixa contagiar por sua cultura, por sua maneira de perceber o mistério de Deus cujos pensamentos estão acima dos nossos como o céu acima da terra, Deus que é espírito (João 4,24)

Konings fala como homem de fé. Entretanto, e sem dúvida, há que se pensar que se pode ler a Bíblia sem um percurso da fé. Todavia essa polêmica é tema deste estudo. Para céticos e crentes, queremos pensar a Bíblia como poesia. Ao ler a Bíblia e estudá- la, deve-se buscar outros autores e, certamente, dialogar. O caminho é longo, amplo e, por várias vezes, são muitas as possibilidades que surgem adiante, bastante diversas entre si. E, bem observa Konings, essa “especialização” explica o porquê de a investigação bìblica ter se “tornado um templo inacessível para o comum dos mortais e, também, para muitos biblistas. É necessário confiar nas pesquisas dos outros.

Para esta postagem, busca-se o caminho contrário da dança de Salomé : o foco é o corpo que é vida, é organizado e contempla mais o movimento destinado a comunicar e encontrar o divino, integrando-se com o sagrado. Ampliou-se o quadro de análise da cena de uma festa da corte para a celebração de toda comunidade, em rituais. A tentativa que se fez nesta jornada foi a de ler, conhecer o texto bíblico e, a partir dessa leitura, a partir da palavra materializada e transmitida pelo papel, entrever o corpo que nele se coloca: corpo que sofre, alegra-se, ora e dança.

Devido a vários aspectos que serão abordados ao longo da dissertação, essa dança encontra-se apagada, relegada ao segundo plano, em registros escritos.
Ao direcionar  luz a essas performances, remete-se a algo que vai além do que está registrado, escrito, indo ao encontro do que é da esfera corporal.

Na Bíblia hebraica – para os cristãos, o Antigo Testamento –, a relação estabelecida entre Deus e a humanidade está em relevo, e o Livro dos Salmos, texto central deste estudo, é um dos instrumentos utilizados capaz de fortalecer esse laço, pois seus poemas são uma oração de corpo inteiro – são poemas que se fazem canção, poesia e oração por meio da voz e da dança. Nesse Livro, o corpo é apresentado como elemento fundamental, que se insere em uma comunidade e está em relação com o outro e com o divino. Os salmos são lidos e analisados a partir da dança, da tentativa de perceber ali performances de um corpo presente.


O estudo da Bíblia hebraica exige que se compreenda o modo como essa biblioteca, essa reunião de textos que é a Bìblia se constituiu.

No Capìtulo 1.

“A formação do corpo de texto bìblico”, busca-se, portanto, ver o processo de estabelecimento do texto, os caminhos tortuosos por que ele percorreu: a produção e transmissão da Bíblia hebraica, da tradução grega, a Septuaginta, e também do Livro dos Salmos, que permanecem sendo uma fonte preciosa para judeus, cristãos e comunidades de quaisquer outras religiões. É necessário entender o percurso do texto bíblico e a multiplicidade de sua formação, além de seu contexto.

No Capìtulo 2.

“O corpo na oração: do gesto à dança”, é feito o desenho do corpo no texto bíblico e a importância da dança na Bíblia, da palavra ao gesto, do gesto à dança. A relação estabelecida pelo indivíduo no espaço e no tempo da dança é colocada em destaque e caracterizada. Aqui, a dança é entendida como a própria oração, situação extraordinária em que o ministro se encontra, estabelecendo um encontro entre a comunidade e a esfera do divino, e, assim, tempo e espaço se sacralizam. Entre os episódios que levam à dança, um deles é a dança em redor da arca da aliança, cujo protagonista é Davi, o rei a quem se atribui a autoria do Livro dos Salmos.


No Capìtulo 3.

“A dança nos salmos: ensaios para as performances”, faz-se uma tentativa de entrever danças realizadas nos salmos e, por meio deles, a voz do intérprete fala de um corpo dançarino ou o movimento dessa voz, o canto, conduz à poesia do corpo inteiro, a dança. Analisam-se dez textos – 25, 29, 41-42, 44, 67, 80, 86, 117, 149 e 150 –, nos quais a dança aparece de forma significativa, mostrando o caráter performático de parte desses salmos. Buscou-se ressaltar que o canto, os textos dos Salmos são lidos e ouvidos, mas também podem conter o movimento e ser apreendidos com o olhar: além de gestos, há adereços, figurinos, disposição espacial, enfim, a criação de um ambiente propício para o dançar. Assim, deixa-se o convite para ler o texto bíblico sob a força e a forma do movimento: o movimento do texto, de uma língua a outra, e o movimento do corpo, do gesto à dança.


                                                                    CAPÍTULO 1


A FORMAÇÃO DO CORPO DE TEXTO BÍBLICO


A produção e transmissão da Bíblia hebraica, da tradução grega, a Septuaginta, e também do Livro dos Salmos, coleção em que se encerram os textos objeto de estudo desta postagem, aqueles em que a dança se apresenta.
Vislumbrar o percurso do texto bíblico e sua multiplicidade,

Não se sabe, de fato, a origem do texto hebraico. Simian-Yofre7 aponta quatro teorias, contraditórias entre si, que buscam esclarecer alguns pontos dessa questão. A primeira delas, proposta por P.A. de Lagarde, é denominada “teoria do texto único original”. Como o próprio nome sugere, haveria um texto-fonte e dele surgiriam todas as outras variantes. P. Kahle, autor da segunda teoria, defende que diversos textos populares foram produzidos em localidades várias, e posteriormente ocorre a unificação de todos eles. A terceira proposta, de W.F. Albright e F.M. Cross, propõe a existência de “textos locais”, seriam eles: o massorético, desenvolvido na Babilônia; o Pentateuco Samaritano, escrito na Palestina; e ao Egito coube a produção da Septuaginta. A quarta e última teoria exposta por Simian-Yofre é a de S. Talmon, que propõe que, apesar de circularem múltiplas formas de texto, aqueles próprios a determinada comunidade sociorreligiosa foram os únicos conservados.

A primeira fase da história do texto bíblico é a da composição literária desse material. O resultado dessa produção, comumente atestado pela verificação de textos originais e autógrafos – testemunhos diretos dessa primeira fase de construção do texto bíblico –, perdeu-se há muitos séculos e não se encontra disponibilizado até o momento; essa ponderação é necessária, visto que ocorrem descobertas nesse campo, e estudos recentes têm sido elaborados

Sendo assim, o que resta é recorrer à análise das transformações sofridas pelo material publicado e editado em diferentes épocas. No período que abrange os séculos III a.C. a I d.C., modificações realizadas nos textos bíblicos são procedimentos comuns. É a época em que ocorrem as chamadas “correções dos escribas”, por meio das quais instâncias autorizadas em uma comunidade religiosa tinham o poder de publicar uma nova edição de um livro canônico devido a circunstâncias que pediam adaptações do texto bíblico utilizado até então.

Após essa fase de constantes intervenções editoriais, por volta do fim do século I d.C., um texto hebraico consonântico particular assume papel central e normativo para o judaísmo, ao ser adotado como único texto autorizado da Bíblia hebraica na comunidade judaica, com exceção da comunidade samaritana, que rompera com o mundo judaico, no século IV a.C. É o texto protomassorético, que remonta a um manuscrito individual de qualidade excelente,10 fato este que pode ser verificado ao se fazer uma análise das particularidades ortográficas, bem como dos erros materiais do escriba, fielmente reproduzidos em descendentes desse arquétipo. Essa forma foi aceita pelos massoretas – nome derivado provavelmente da palavra hebraica masorah, que significa “tradição” –, os quais trabalharam sobre ela.

Quando o hebraico se transforma em uma língua de cultura, estando presente na forma escrita e em atos litúrgicos, as matres lectionis – “mães da leitura”, letras consonantais que funcionam numa função complementar, como sinais de vogais especiais11 – já não eram suficientes para a preservação de uma pronúncia adequada, o que levou os estudiosos a lançarem mão de outros instrumentos. Entre os séculos VI e X d.C., os massoretas foram os responsáveis por desempenhar a tarefa de elaborar um conjunto de medidas que, no próprio corpo de texto, diferenciasse o sistema de vocalização com o auxílio de sinais diacríticos. Provenientes quase sempre da mesma família, trabalhavam nos grandes centros do judaísmo, na Babilônia e na Palestina. Tais estudiosos desenvolviam dois tipos de trabalho textuais: inseriam os sinais vocálicos no texto e indicavam particularidades sobre as palavras e frases. O conjunto dessas observações, a massorá, achava-se nas margens dos manuscritos ou em listas no fim do texto bíblico. Assim, surge o Texto Massorético, o qual comporta consoantes, sinais de pontuação e de cantilação (acentos), vogais, divisões em alíneas, seções e livros, além de notas textuais resumidas (“pequena massorá”) ou em forma detalhada (“grande massorá”). O desenvolvimento de tais notas indica a formação de uma “crìtica textual” sistemática, a serviço de uma estabilidade máxima do texto bíblico considerado correto,no intuito de assegurar aos leitores uma grande precisão. Representa, portanto, um extremo esforço filológico e editorial. Outro testemunho direto do texto bíblico pertence à comunidade samaritana e foi conservado por ela: o Pentateuco Samaritano, um texto de tipo consonântico que apresentava uma grafia arcaica do hebraico e circulava na mesma época do texto protomassorético. Ao compará-lo ao Texto Massorético, notam-se diferenças referentes à ordem cultual e ideológica. Além disso, em aproximadamente 1.600 passagens, o Pentateuco Samaritano e a Septuaginta divergem do massorético.

A partir da descoberta feita entre 1947 e 1956, de 800 manuscritos bíblicos em 11 grutas de Qumrã, localizada na margem noroeste do Mar Morto, a perspectiva se inverte, e o grego deixa de ser apenas um auxiliar para o conhecimento do hebraico. Antes desse acontecimento, os manuscritos bíblicos mais antigos datavam do século V d.C. Grande quantidade de textos de Qumrã é provavelmente do século I a.C., e alguns deles são de até III a.C. Dali por diante, o hebraico permite, às vezes, compreender melhor a obra dos tradutores e revisores da Septuaginta. Desse modo, tal descoberta resolve um enigma: o grego, quando se afasta do Texto Massorético, simplesmente não inventa. Apesar disso, os manuscritos encontrados não revelaram o tipo textual sobre o qual se apoia a tradução grega.

Ao analisar a história do texto da Bíblia hebraica, indicam-se, portanto, quatro textos diversos: o protomassorético, o Pentateuco Samaritano, as várias formas encontradas entre os documentos do mar Morto e a Septuaginta, tradução grega feita em torno dos séculos III a II a.C., que leva a supor uma base divergente daquela utilizada para o Texto Massorético. Entre os testemunhos indiretos, há, por exemplo, traduções feitas do século II ao VII d.C.: os targumim, tradução aramaica baseada no Texto Massorético que remonta ao século II d.C.; os textos gregos de Áquila, Símaco e Teodocião; a Vulgata, versão latina de São Jerônimo, do século IV d.C.; além de revisões feitas na tradução grega que a aproximam do Texto Massorético.

“Uma vez que se trata de uma história manuscrita, ou seja, de textos escritos a mão, é preciso ter presente a possibilidade de erros introduzidos ali.
Especificamente sobre a Septuaginta, sabe-se que a transmissão emaranhada de seu texto deve-se em parte à constante preocupação dos tradutores por seu “melhoramento” com a ajuda da Bíblia hebraica. Os tradutores foram muitos: pode haver mais de um livro traduzido pelo mesmo tradutor ou mais de um tradutor dentro de um mesmo livro. Da tradução dos Salmos, por exemplo, só se pode afirmar que é proveniente de um mesmo grupo de tradutores, mas a origem da tradução permanece incerta.16 As hipóteses, porém, são objeto de debate entre os especialistas e constantemente superadas por novos estudos.

A pluralidade de formas textuais bíblicas, na verdade, não é um feito somente de copistas ou de tradutores, mas corresponde principalmente à base hebraica, a qual esses profissionais do texto tinham sob os olhos e com o que trabalhavam. 17 Deve-se ter em vista que essa diversidade se encontra de início nos manuscritos hebraicos conservados pela biblioteca de Qumrã. 18 Até a formação de um texto hebraico padrão no século II d.C., ou seja, até o texto protomassorético – portanto, até vários séculos depois da tradução realizada em Alexandria –, não se encontravam em uma forma amplamente unificada e consolidada as distintas partes da Bíblia hebraica, não havia um material que pudesse ser utilizado como obra de referência. Sendo assim, em nenhum momento da história, escribas e tradutores dos livros da Bíblia hebraica tiveram à sua disposição “uma forma „original‟ distinguível que representasse o produto acabado de uma redação final e que, ao mesmo tempo, ainda não estivesse modificada (de modo deliberado ou não) pela copiagem”.

Assim, reiterando, as histórias de formação do texto bíblico se sobrepõem e se confundem, e a possibilidade de se reconstruir literalmente um “texto original” da  Bíblia faz-se inexistente. Perdidas as origens, a ideia de exatidão torna-se ainda mais distante ao se pensar que os textos considerados canônicos em uma determinada comunidade possuem certa fluidez, na medida em que podem apresentar modificações realizadas por uma instância autorizada. Como se mencionou anteriormente, a comunidade judaica vivia, entre os séculos III e I a.C., as chamadas “correções dos escribas”

Também são provas da maleabilidade do texto as constantes revisões e recensões, ocorridas do século II ao século IV d.C., para que o material, modificado de forma consciente e sistemática, se adequasse a princípios precisos, de acordo com uma finalidade desejada. Nas revisões, realizadas por judeus letrados, o grego da Septuaginta era adequado de forma a suprimir inexatidões ou adaptá-lo à evolução do texto hebraico. Sob esses dois aspectos, eles enriqueceram e transformaram a tradição textual. Os revisores mais conhecidos são Áquila, Símaco e Teodocião. Já as recensões, feitas por cristãos, foram responsáveis por apresentarem escolhas editoriais: diante da diversidade dos dados manuscritos, fez-se um esforço a fim de se estabelecer um bom texto e, para isso, os profissionais retêm para cada livro os exemplares considerados “autênticos”. As mais importantes são as edições de Orígenes e de Luciano

A mais antiga tradução da Bíblia é testemunha textual preciosa devido à sua Antiguidade e por ter percorrido uma história textual complexa, que deve ser considerada em sua utilização. A Septuaginta não se baseia no Texto Massorético; ao contrário, sua fonte hebraica é muito diferente. Outro ponto que atesta a importância dessa tradução grega na Antiguidade é o fato de ela ter sido referência para a maioria das versões antigas da Bíblia, e não do texto hebraico.

A relação existente entre esses textos e a sua disposição ao longo do tempo podem ser conferidas no diagrama a seguir, que visa demonstrar a multiplicidade de caminhos percorridos pelas palavras escritas. Do lado direito, registra-se a data de elaboração.


ABORDANDO  A SEPTUAGINTA


Por volta dos séculos II a IV a.C., sábios eruditos judeus são convocados pelo rei Ptolomeu II Filadelfo para realizar um grande empreendimento tradutório: transpor a Bíblia hebraica para a língua grega. Esta é a base da lenda que envolve a Septuaginta, cujo nome faz menção a seu surgimento: seis homens de cada tribo de Israel, ou seja, 72 tradutores, se incumbiram dessa imensa tarefa.

Desse modo, nesse sentido original, pode-se considerar como “Septuaginta” somente o que se produziu em Alexandria, durante a diáspora, ou seja, só o que corresponde à mais antiga tradução dos cinco primeiros livros de Moisés, a Torá. Posteriormente, no cristianismo primitivo, o termo se estendeu aos demais livros, os Profetas e os Escritos, passando o numeral grego a contar todo conjunto da Bíblia hebraica, assim como também às diversas adições a Ester, Salmos, Jeremias e Daniel – livros deuterocanônicos (ou apócrifos), que eram permitidos para o uso eclesial, e que foram, mais tarde, admitidos no cânon da Igreja católica e só existiam em grego, ou eram traduções gregas de livros hebraicos ou aramaicos que o cânon judeu não reteve. 22 A última acepção mais ampla do termo “Septuaginta” é a que se mantém na atualidade.

A tradução da Torá ao grego foi um fenômeno único e teve um impacto cultural sem precedentes na história da tradução. “As escrituras foram os únicos escritos religiosos da Antiguidade que tiveram o privilégio de serem vertidos para a língua de Homero.”25 Se, por um lado, os tradutores dão mostras de um conhecimento das línguas grega e hebraica, à sua volta o esquecimento do hebraico abrange grande parte da população. Nesse tempo em que se produzia o texto da Septuaginta, hebraico (evoluindo para o hebraico mishnaico), aramaico e grego coexistiam, com predominância, porém, desse último, bem comum às diversas comunidades judaicas, condição esta que se manteria por vários séculos.26 Sendo assim, a expansão do helenismo e o prestígio grego da koiné como língua franca e literária são elementos importantes para que a tradução do texto bíblico ocorresse. Devido às necessidades litúrgicas e pedagógicas da comunidade judaica de Alexandria, a qual desconhecia o hebraico naquele momento, era imprescindível a elaboração de uma tradução.

O texto bíblico grego é tido como um dos documentos literários mais relevantes para se compreender a vida religiosa, intelectual e política diversificada e em constante desenvolvimento do judaísmo antigo na pátria palestina e na diáspora ocidental ao mesmo tempo que proporciona informações sobre a formação e o desenvolvimento da fé cristã.

Nas coletâneas judaicas das Sagradas Escrituras hebraicas, os livros são estruturados de modo a explicitar o desenvolvimento de seu significado assim como o período da conclusão da coletânea parcial no judaísmo antigo, orientando-se, portanto, pela cronologia do tempo narrado e pelas necessidades práticas, isto é, o aproveitamento máximo dos rolos. A sequência Torá-Profetas-Escritos estabeleceu-se muito cedo, apesar de a ordenação detalhada dos distintos livros bíblicos frequentemente não ser considerada normativa pelos copistas judeus, especialmente nos Escritos, cujas divisões do texto em parágrafos, seções e livros remontam a ciclos litúrgicos de leitura e recorte em perícopes que correspondem ao ofício da sinagoga. Os manuscritos do Mar Morto, a Septuaginta e o Texto Massorético atestam vários sistemas de divisão.

É possível que o abandono gradual da Septuaginta por parte dos judeus contribuiu para a fixação do cânone no fim do século I d.C., o qual excluía obviamente vários livros da Bíblia grega. Na Igreja antiga, a Septuaginta torna-se o Antigo Testamento cristão, notadamente mais extenso que a Bíblia judaica, o que é considerado por grande parte dos professores eclesiásticos maior variedade textual, não sendo entendido como um critério essencial da distinção avaliativa dos escritos bíblicos, ao se classificarem os livros como “prioritários” e “secundários”

O cânone hebraico se encontra no cânone grego, que apresenta textos suplementares, que são frequentemente designados como “deuterocanônicos”. Além disso, a disposição dos livros e dos conjuntos de livros não é correspondente nos dois cânones, sendo que a diferença se apresenta nos Escritos, que foram separados em duas partes – os Livros históricos e os Profetas –, e a coletânea dos Profetas foi colocada no fim do livro.

Essa mudança nos livros, que significou divergência entre Bíblia hebraica e grega.

O cristianismo adotou a Septuaginta e a interpretou autonomamente, relacionando-a à vinda do Cristo, o que leva o judaísmo a delimitar o texto, por meio de novas traduções gregas e amplas recensões – processos indicados na seção anterior –, e reconduzi-lo à tradição hebraica, considerada a única autêntica.

 O LIVRO DOS SALMOS


O estudo do Livro dos Salmos parte do princípio de ser esta uma antologia em que a dança está presente de modo significativo.
Como os demais livros da Bíblia, os salmos brotaram dos sofrimentos e das emoções das pessoas, o que evidencia que, assim como o caráter de elevação espiritual, é importante ter em conta o momento de produção salmística, pois esse tipo de manifestação é a forma que Israel encontrou para expressar sua fé e o confronto com os problemas mais ordinários do dia a dia.
Um dos temas mais importantes na Bíblia hebraica é a relação estabelecida entre Deus e a humanidade, laço este que se estreita também por meio dos salmos, oração de corpo inteiro, do indivíduo e da comunidade.
a dança faz parte dessa manifestação do povo de Israel, no intuito de estabelecer a comunicação com Deus, louvando-o com júbilo.

Até hoje, os salmos permanecem fonte inesgotável para judeus, cristãos e comunidades de quaisquer outras religiões, pois eles alimentam vidas e amparam mortes ao exprimirem a caminhada de um povo em oração. “Os salmos continuam sendo preces e continuam sendo poesias. Isso lhes confere passaporte universal, porque podem ser compreendidos por todas as pessoas. Quanto mais se mergulha em seu sentido poético, mais se compreende a sua riqueza orante.


Na Bíblia hebraica, encontram-se os louvores, t e hillîm ou Sefer t e hillîm: “T e hillîm é plural irregular de t e hillâ, feminino, de onde se deveria esperar antes t e hillot. O sentido de t e hillâ é canto de louvor ou hino.”
Na Septuaginta, lê-se psalmós, que se refere ao ato de fazer vibrar as cordas de um arco, as cordas de um instrumento musical, e indica cada composição da coletânea.
Já na versão latina, “saltério” remete ao termo grego psaltério, instrumento de cordas, um tipo de harpa, que passa a indicar os salmos que desse modo eram acompanhados.
Essas palavras do campo semântico musical se fazem canção, poesia e oração, e originam os salmos bíblicos, que nascem partindo da observação da realidade, da expressão de emoção e de fé, tudo isso misturado num poema.

Os textos bíblicos em geral, e os salmos em particular, são testemunhos que comunicam a experiência religiosa fundante .

Os salmos refletem os acontecimentos da história, o progresso da revelação e da fé de Israel, portanto, são memória viva de um diálogo milenar entre Deus e seu povo: com eles os orantes se rejubilam, se entristecem, relembram as promessas antigas e alimentam suas esperanças. A história do povo de Israel, com êxitos e catástrofes, vira, assim, oração que se faz pela abordagem dos salmistas, que sempre buscam enxergar as realidades da vida na perspectiva divina. A partir da intervenção de Deus na história, os israelitas sentem-se envolvidos no plano de salvação. É na oração que eles lembram a Deus o compromisso assumido por Ele e desenvolvem uma consciência de pertença a Seu povo, reforçando a fé e a certeza de que a Aliança não deve ser esquecida.

O século II a.C. apresenta os salmos como fazendo parte da terceira coleção – os ketubim, os Escritos – deliberadamente concebida como uma antologia dos gêneros literários presentes em textos da comunidade judaica, ao selecionar o que essa literatura tinha de mais notável, pretendendo, definitivamente, ser a literatura judaica por excelência. Apesar de a classificação dos livros poéticos abarcar apenas três livros – a saber, os Salmos, Cântico dos Cânticos e Lamentações –, o texto bíblico é repleto de manifestações poéticas. Desse modo, apesar de trazerem elementos de poesia, os livros que não são considerados poéticos estão em função de outros objetivos e gêneros, tais como proféticos e sapienciais.

A história da formação do Livro dos Salmos reflete e refere-se aos sucessivos momentos da história do povo de Israel. A memória dessa experiência é transformada em oração. Apesar de o livro ter sido elaborado por volta do século III a.C., a criação dos salmos, no entanto, não é concomitante, pois muitos são bastante anteriores, dos períodos monárquicos, do exílio e do pós-exílio da história de Israel. Alguns salmos podem até ser anteriores à monarquia.48 Segundo Tilly, “estudiosos concordam em afirmar que os cânticos hinos e súplicas contidos nos salmos surgiram, foram retomados, relidos e até refeitos ao longo de um milênio, da época de Davi até o tempo dos macabeus”. 49 Porém, mesmo com essa concordância geral a respeito da formação do livro, não há unanimidade sobre a datação de cada salmo, quando tomado separadamente. Mesmo tendo essa relação com a história de Israel, os salmos, para todos os efeitos práticos, não podem ser datados, nem sequer aproximadamente nem pelo seu conteúdo, nem ainda pela sua linguagem e estilo poéticos. Momigliano aponta que “o manuscrito de salmos do Qumrã demonstrou que no século II ou mesmo no século I a.C. a coleção dos salmos ainda estava aberta a modificações”

“Assim como Moisés deu cinco livros de leis a Israel, assim Davi deu cinco livros de salmos a Israel”: é dessa forma que um comentário rabínico evoca a estrutura do Livro dos Salmos, o que evidencia a intenção de transformá-lo em uma “Torá de Davi”, por assim dizer, indicando a orientação do Livro dos Salmos pela Torá, modelo de texto canônico e litúrgico.

A suposta datação de alguns salmos remetentes ao tempo de Davi e as referências feitas a ele, no texto bíblico, como “o favorito dos cantores de Israel” (2Sm 23,2) elevam-no à categoria de patrono dos salmistas, levando, consequentemente, a uma “davidização” da tradição sálmica. Repetidas vezes, Davi é apresentado como músico, hábil tocador de cítara (1Sm 16, 16.23; 18,10; 19,9).

 Muitos salmos, portanto, fazem menção a Davi e também se referem a outros levitas e cantores do templo, como os filhos de Core e Asaf. Essas indicações, além de tentarem desvendar a autoria dos salmos, nos mostram que o livro pode mais ser comparado com nossos livros de cânticos nas igrejas do que com uma coletânea de orações individuais.

Uma questão que se coloca ao falar da composição dos salmos é a respeito dos cultos em Israel da Bíblia hebraica, os quais se classificavam em dois tipos: um deles era vivido nas pequenas aldeias do interior e nos santuários locais, caracterizado como doméstico e familiar, sendo mais ligado às tradições cananeias da sua cultura;
Já o segundo tipo era o culto oficial no Templo de Jerusalém, dirigido pelos sacerdotes e levitas, mais ligado aos sacrifícios de animais e que, nas festas e grandes acontecimentos do ano, reunia todo o povo.
Os salmos individuais nasceram, portanto, ligados aos santuários do culto caseiro e de interior, enquanto os de louvor coletivo vêm do templo.
Sigmund Mowinckel defendia o princípio de que o culto era o ato criador dos salmos.
Contra alguns que sustentavam serem os salmos expressões da oração individual, ele contestava uma religião interior sem culto.
De fato, a cultura judaica é essencialmente comunitária e prática, e não tanto mística e interiorizada. Alguns cânticos do Templo de Jerusalém compõem o Livro dos Salmos, como as “liturgias de entrada no santuário” (Sl 15) ou as “orações de ação de graças” (Sl 22) que serviam de modelo nas festas familiares no Templo (Dt 12:7)

 
É provável que a unidade de um ou outro salmo seja igualmente constituída por sua orientação sobre um desenvolvimento litúrgico. Entretanto, contrariamente aos critérios evidentes de uma estrutura “formal” ou “histórica”, a identificação dos elementos litúrgicos e de seu encadeamento em um salmo continua relativamente hipotética, uma vez que os textos bíblicos quase não fornecem informações precisas sobre a liturgia do culto no Israel monárquico e nas sinagogas pós-exílicas


Também não se sabe exatamente como os salmos eram usados nos cultos cristãos dos primeiros séculos, dado que não há indicações de rituais ou de esquemas litúrgicos que indiquem a sua prática em curso. Há indícios, no entanto, de que os cristãos continuaram com o costume da piedade judaica de orar, ao menos três vezes por dia.
A oração contida nos salmos, como será demonstrada adiante, poderá ser também relacionada ao que é material e exterior: ao corpo, ao movimento, à dança contida no rito, definido por Aldo Natale Terrin como momento-espetáculo que apresenta a vivência imediatamente real.
No Livro dos Salmos, de acordo com Arthur Weiser, há “numerosos fragmentos da liturgia do culto e alusões a procedimentos cúlticos”. E, apesar de essas informações não permitirem que se reconstruam os detalhes da sequência da festa, elas trazem à tona elementos essenciais da tradição do culto, da festa, que é, para o autor, o contexto vital da maioria dos salmos e dos seus gêneros literários, o que de fato confere ao Livro a viva unidade interior.

Nas orações comunitárias, provavelmente, o canto dos salmos tinha um papel importante, uma vez que, dentre os livros da Bíblia hebraica, o Livro dos Salmos, juntamente com o de Isaías, é o mais citado em todos os textos neotestamentários.

A recitação dos salmos tinha uma dimensão mística e criativa. O momento de rezá-los não se configurava somente em recitar as orações que outros tinham feito de forma mecânica, inconsciente, mas também para que cada pessoa vivenciasse sua própria união com Deus. O ideal era que se aprendesse a rezar o salmo de tal maneira a fim de que se despertasse a vontade de formular seu próprio salmo. Jesus aprendeu a lição dos salmos, chegou a fazer sua própria oração e a ensinou aos apóstolos, que o transmitiram para nós: o Pai-Nosso.

Composto por 150 salmos, as cinco seções se dividem do seguinte modo, considerando-se a numeração do texto hebraico, o Massorético: a primeira vai do número 1 ao 41; a segunda, composta pelo 42 ao 72; 73 a 89 fazem parte da terceira; 90 a 106, da quarta; e, finalizando, os salmos 107 a 150 são componentes da quinta seção. Divide-se dessa forma partindo da observação da semelhança entre as doxologias que encerram os salmos.

De acordo com análise de Martin Rose, “os responsáveis por essa estruturação esforçaram-se para colocar as cesuras em dados literários evidentes”. Assim, o primeiro livro encerra a primeira coleção davídica; o segundo coincide com o fim das “Orações de Davi”; o conteúdo destoante do Salmo 89, que encerra o trecho messiânico, faz com que ele seja o último do terceiro livro; os salmos que constituem a quarta parte são relacionados ao Salmo de Moisés e os Salmos do Reino; já a última parte não tem uma doxologia análoga às demais, o que faz Rose acreditar que toda ela encerra o Livro dos Salmos.

O livro bíblico dos Salmos não é um escrito contínuo apresentado em 150 capítulos, mas claramente de uma coletânea que reúne numerosas pequenas unidades literárias que, apesar de todas as “contextualizações” secundárias, sempre conservaram sua “individualidade” particular. A profunda diversidade que caracteriza a origem desses textos poéticos e da sua função primitiva está além da unificação proposta aos Salmos, que, tendo em vista seu longo processo de construção, se considera como um aspecto secundário e tardio.
A numeração do Livro dos Salmos da Bíblia hebraica diverge daquela presente na Septuaginta. Logo de início, verifica-se que a Bíblia grega compreende um salmo suplementar, o salmo 151

Além disso, do salmo 9 ao 147, a numeração da Septuaginta difere da do Texto Massorético, sendo que a do grego é em geral inferior em uma unidade à do hebraico massorético. Talvez a numeração do grego seja original, por unir os salmos 9 e 10 (LXX 9), que constituem um só poema em forma de acróstico. Vários manuscritos hebraicos reúnem, como a Septuaginta, os salmos 114 e 115. Na Bíblia grega, os títulos dos salmos são mais numerosos e mais desenvolvidos que no texto hebraico.61 O Quadro 4 explicita a diferença da divisão dos textos nas versões.


Na Bíblia grega, os títulos dos salmos são mais numerosos e mais desenvolvidos que no texto hebraico. Esses acréscimos são em sua maior parte de origem judaica e descrevem o uso desse livro na liturgia judaica.63 Esses títulos não correspondem a indicações históricas exatas, sendo considerados como secundários em relação ao próprio corpus poético dos salmos e não garantem, portanto, um entendimento autêntico dos textos. Tais títulos foram acrescentados posteriormente pela tradição judaica e não se deve excluir que, já nesse cabeçalho dos salmos, se possam reconhecer as primeiras tentativas de classificação formal. Os biblistas têm tentado há séculos entender certas palavras utilizadas nos sobrescritos no sentido de termos genéricos, mas as informações etimológicas e históricas são insuficientes e não permitem obter clareza sobre essa questão. Já os tradutores dos séculos III e II a.C. não estavam mais em condições de entendê-los de forma correta. A maioria desses títulos alude a instrumentos de música, festas, entrada no templo, procissões e sacrifícios. Certamente deve-se ler os salmos no contexto de toda a literatura da Bíblia hebraica, do qual fazem parte e à qual remetem constantemente.









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